quinta-feira, 26 de março de 2009

Twitter para quê?

Primeiro vamos deixar bem claro que o Twitter não tem uma função definida. Apesar de rotulado de nomes como microblog ou novo feed, o Twitter foi criado com a finalidade de que pessoas mantivessem contato, simplesmente escrevendo em até 140 caracteres o que está fazendo. Função que logo tornou-se pequena para o universo de possibilidades encontradas no Twitter. Para ter um exemplo claro disso, hoje o Twitter é um dos principais feedbacks do programa CQC, da Rede Bandeirantes.

O efeito Twitter pode ser sentido no mercado publicitário? Seria uma nova mídia? Pelo menos para o apresentador Marcelo Tas, o “maior Twittero” do Brasil, com aproximadamente 21.680 seguidores, sim. Explico, Marcelo Tas estampou a capa do caderno de negócios do jornal Wall Street ao declarar sua inovadora iniciativa de ser patrocinado pela Telefônica. Com esta ação a Telefônica teria um banner no perfil do apresentador, e o mesmo escreveria pelo menos 20 textos patrocinados por mês para os seus milhares de seguidores. A ação foi idealizada pela agência digital iThink, que devido ao “barulho” provocado pela idéia, promete vir a público e explicar melhor a ação.

Não muito longe, basta lembrar que o Twitter foi uma das ferramentas para a vitoriosa campanha eleitoral do Presidente Americano Barack Obama, o segundo mais seguido do mundo, com mais de 400 mil seguidores. Ou seja, o site é de fato uma ferramenta com potencial para várias soluções de marketing. Por este e outros motivos o Twitter é hoje a terceira mais importante rede social virtual, é também a que mais cresce. Ainda assim o sucesso é uma incógnita para muitos estudiosos. Entretanto o resultado é visível, recentemente o Twitter foi capa da revista Época.

Mas, afinal Twitter para quê? Isso pode variar de acordo com o perfil de cada usuário. Particularmente uso o Twitter para seguir profissionais que diariamente me mantêm informado sobre publicidade, mídia, tendências de mercado etc. de forma enxuta e direta. Alguns usuários preferem seguir amigos e assim ficar informado sobre o que acontece na vida de cada um. As possibilidades são infinitas. Muitos torcem o nariz, muitos apostam no fracasso relâmpago. A verdade é que o site pode ser um grande filão enquanto durar.

Elias Figueiroa.
Redator da Tag Group, no “Twitter.com/eliasfigueiroa”.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Zé Tostão na televisão.


Conjunto Bela Vista do Bom Jesus. De manhã cedinho. Por um acaso Zé Tostão é parado na rua precariamente pavimentada do seu, não menos precário, bairro. Uma equipe de jornalismo o aborda justamente quando saia da padaria. Pés descalços, bermuda surrada, camisa de um deputado estadual e segurando uma sacola de papel com seis pães quentes, ele leva cinco segundos para entender o que se passa. Uma bela repórter pergunta se ele pode dar um breve depoimento sobre a situação em que se encontra. Zé Tostão sorri. Depois da pergunta feita ele solta: “O governo não ajuda em nada, a situação aqui ta preta minha filha. Eu não tenho nada, não tenho nada”. Depois do depoimento, a equipe segue para terminar sua reportagem em outro local.
Pois bem, uma semana depois o Conjunto Bela Vista do Bom Jesus é tomado por uma enchente, chuvas torrenciais se encarregam de gerar o caos. São casas desabando, gente se acidentando, àrvores levadas pela correnteza. Um inferno(1). Durante a ação dos bombeiros uma equipe televisiva chega para cobrir os acontecimentos. Perto da equipe estava o Zé Tostão, e não é que por uma dessas coincidências da vida(2) eles pedem o depoimento dele. Que solta ao microfone: “O Governo não ajuda em nada, a situação ta preta meu filho. Perdi tudo que tinha, tudo!”.
Alto Branco do Sul, bairro nobre. Noite. Sentado no confortável sofá tabaco(3) José Prata assiste o noticiário local e novamente vê o depoimento do Zé Tostão. Vira-se para sua esposa e comenta elegantemente: “viu querida? Esses pobres são uns indecisos, por isso o Brasil não evolui”.


1. Inferno aquático
2. Sem querer querendo.
3. Tabaco cor, certo? Seu pobre.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ele, poucas palavras e depois o silêncio.


Escrito no convite tinha o horário da festa. Ele chegou cinco minutos depois, quando na sala do luxuoso apartamento do Gerente Comercial via-se pessoas sorrindo, bebendo e brindando. Brindando, bebendo e sorrindo(1). E assim a festa ia, e ele, no ritmo dela. Noite adentro, bebida a fora. Ele só foi convidado por ser vizinho do anfitrião, pessoa que ele mal conhecia, melhor, não conhecia nada além do nome. Na festa, basicamente funcionários da empresa do anfitrião. Ele, nem aí, afinal, comida e bebida de primeira já o bastava.
Certa altura da noite, todo mundo indiretamente apresentado pelo teor alcoólico dos copos que insistentemente e incessantemente circulavam, ele chega perto do anfitrião(2) que naquele exato instante estava cercado por cinco pessoas e manda em voz alta:

- Cara, que festa... parabéns, festão, festão mesmo.

O anfitrião, homem ponderado, moderado e reservado, sorri amarelamente de volta, sem responder nada. Ele, que não sabe onde fica o freio social, continua em voz alta:

- Mas, aqui entre nós... Na boa, amanhã tu vai ligar reclamando desse pessoal do bufê, né não? Cara, só tem Pepsi aqui.

Silêncio total. Como num filme, até a música parou depois do comentário dele. Todos se entreolharam sem graça, exceto por um estagiário que naquele momento, entrou debaixo da mesa para segurar a gargalhada. Do anfitrião, apenas a serenidade de quem agradece a deus por não portar uma .38 no lugar do smartphone.
Bom, dizem que essa festa ainda rendeu muitos comentários nos corredores do setor comercial da multinacional, a rádio peão então, já aumentou em escalas dantescas. Na versão da Zita do cafezinho, até socos e polícia perfumam a estória. Hoje o anfitrião, que mora em outra residência, foi promovido a diretor regional da Pepsi. E ele, o vizinho(3), aprendeu uma lição: nunca mais misturar refrigerante e uísque.


1.Necessariamente sem ordem.
2.Essa altura, já era um dos seus melhores amigos.
3.Ele que não lembra da festa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Sinal de fumaça internacional


Foi quando bateu à sua porta o passado. No ponto, nem mal passado e nem bem passado, nunca apagado. E à porta estava uma carta com sinais de fumaça formado por bits, via e-mail, naturalmente natural e moderno. Ele ficou feliz, afinal um dos últimos da tribo estava vivo e bem, bem no velho mundo, onde todo mundo é feliz, como no Admirável Mundo Novo lido e relido. E agora a tribo inteira descerebrada vai celebrar, pois na tribo urbana eles sabem que quem sabe como são, ignorantes não são.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

E o João? Ninguém?


Depois de três noites em claro, claro, tudo ficou mais claro. João, como sempre quis, falou o que devia e não devia, como deveria. E assim a viu com outros olhos, olhos por onde não descia lágrimas de crocodilo, na verdade, de animal nenhum. João, uma pessoa que nunca percebeu. Só percebeu agora. E João ficou confuso, com fuso horário às avessas, ficou perdido, no espaço, no tempo e nele mesmo. E eu, agora, nem sei mais o que deveria escrever sobre o João. Melhor assim, melhor assim. Do João ninguém, ninguém ousa falar do João.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Meu amigo.


Fred era desconformado com uma coisa bastante particular: seus amigos. Sempre havia algo que ele não gostava, suportava, tolerava. Sempre. E esse sempre ficou bastante tempo fazendo dele parte de algo que passou a não querer: ser parte do ciclo de amigos dos seus amigos.

Então abandonou seus amigos. Não demorou para sua casa ser invadida pelo silêncio que perfura o lar dos sem amigos. Mas esse silêncio não perdurou. E logo Fred falava consigo mesmo, ele queria ouvir o que ele tinha para dizer. Obviamente, isso não foi suficiente, pois seus botões não respondiam.


Foi então que surgiu o Roberto - Numa tarde vazia e fria, vale ressaltar - Gente fina, cara legal, do jeito que o Fred queria como amigo. E os dois se deram bem, bem até demais. E logo se tornaram inseparáveis.

Seis meses depois, no dia 23, morre Fred. Na certidão de óbito, havia detalhes técnicos do ataque fulminante do coração. Alguns ex-amigos de Fred estiveram presentes no enterro. Chovia fino. Ninguém viu ali o tal de Roberto que o Fred tanto falou. Fred que nada mais era do que o amigo imaginário de Roberto.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Quem procura, acha.


Ela encontrou Carlos saindo da aula de Direito Civil e perguntou sobre seu amigo. Ele, prontamente, apesar de pego de supetão, respondeu em seguida.

- Beto era assim mesmo: sem graça, sem sal, sem vontade e sem dinheiro. E o pior, o que ele tinha de muito, era muito mal. Era muito chato, muito sonolento e muito, mas muito mesmo, sem vontade.

- Vontade de quê?

- De tudo.

- ...

- Bom, ele não tinha vontade nem de deitar com ela, nem de beijá-la, nem... Nem de nada.

O que eu soube depois foi que ela se virou e saiu chorando. Carlos, sem saber quem era ela, apenas ficou pensando no jogo seria televisionado hoje à noite depois da novela.




segunda-feira, 18 de junho de 2007

Tommy Lee Rowla II – A ida.


Depois de tentar o teatro, ainda bastante abatido, Tommy Lee Rowla chega à cidade grande. Ainda era noite quando da janela do ônibus ele pôde observar os encantos da cidade que brilhava em letreiros luminosos e janelas acessas em arranha-céus. Com pouco dinheiro, ou melhor, muito dinheiro pouco1, ele pôs a mochila nas costas2 e começou a andar. Nesse gastar desnecessário de chinelo batido, ele cansou, se encostou na marquise de um edifício residencial suburbano e cochilou3 até que os primeiros raios do sol vindouro começaram a incomodá-lo.

De pé, correu atrás do que fazer. Não achou nada. Melhor, achou boné velho no chão, mas isso não importa muito. Enfim, nesse contexto de cidadão errante ele vê uma placa pintada artesanalmente no tapume de um shopping em construção, a placa carrega os dizeres: “precisa-se de pintor de placa”. Ele aceitou, falou com um bigodudo mal humorado, que mostrou onde ele iria começar seus afazeres.

Num canto da construção ele sentou-se num banco de madeira4. Do lado direito, várias tábuas5 bem cordadas, prontas para virar placa. À esquerda algumas latas de tinta vermelha e um pincel gasto. O bigodudo o olhou e apenas precisou dizer uma única vez as ordens para o recém contratado Tommy Lee Rowla. “Escreva em todas essas placas o seguinte: Precisa-se de pintor de placa”.

Segundos depois, um momento de indagação preenchia seu ser, Tommy Lee Rowla ficou a pensar: estaria ele participando da sua demissão? Quem pintou a primeira placa? Seriam os deuses astronautas? E nisso, voltou à realidade, privado de devaneios pôs-se a trabalhar. A vida real não permite ensaios e nem pintores preguiçosos.


1 – Para ser exato, oito notas de um real e três moedas de vinte e cinco centavos.

2 – Dele, obviamente. Um auto-burro-de-carga.

3 – Antes, cagou. Descobriu que não se deve confiar no pastel á la bus station.

4 – Carma?

5 - Para ser exato, mais uma vez, 23 tábuas.




segunda-feira, 11 de junho de 2007

Felipe e uma garrafa de vinho


Felipe, quase sempre cego as reluzentes passagens da vida, decidiu abrir o vinho que estava na geladeira há quase um ano. Sentou-se no tapete da sala, sozinho. Não feliz, muito menos triste. Apenas ele mesmo e suas contemplações. E pois a falar com seus botões:

“Sentou-se ao meu lado. Olhei-o com ar de superioridade, como sempre fiz. Mas naquele dia algo estava diferente, eu sabia. Ele com aquela bermuda jeans ao meu lado - Coitado - pensava eu sem saber o que iria descobrir.
Foi quando ele abriu aquele maldito estojo de óculos desgastado e de dentro tirou uma caneta amarela e roxa, esbugalhei meus olhos, algo partiu meu coração naquele momento. Dentro ainda vi uma borracha velha e bastante gasta. Senti meu coração ser espetado por algo comoventemente cortante. Maltido! - disse eu várias vezes em silêncio profundo e agonizante.
Ele sabe como ser feliz, ele e aquela maldita vida ordinária que levava.
Descobri que senti inveja. Descobri que o coitado ali era eu.”

Felipe tomou outro gole. Deixou a taça no canto. E não falou mais a noite toda.






sábado, 2 de junho de 2007

Marina e Fabio, Fabio e Marina.



Para Marina ele nunca falava exatamente o que ela queria ouvir.

Para ele Marina estava sempre distante.

Fabio sempre inominável, Marina um nome complexo demais.

Marina não gostava de mostrá-lo como se sentia, sempre fria.

Os dois se viam diretamente diferentes.

Fabio mostrava-se demais, de tão quente, queimou-se.

Nunca brigavam por motivos sérios, o oposto quase sempre.

Eram inversamente proporcionais.

Fabio e Marina conviviam no limiar do relacionamento líquido e certo.

E assim nas brigas Marina pedia para Fabio terminar se assim quisesse.

Marina sabia que o Fabio nunca o queria.

Mas um dia o sol nasce virado, Fabio o quis e Marina nunca mais foi a mesma.